A Crônica: O dia em que dei uma de cupido — Andreia Donadon Leal

Escritora Andreia Donadon Leal

 

O dia em que dei uma de cupido

Andreia Donadon Leal

 

MARIANA [ ABN NEWS ] — Música tocada num movimento coordenado, com intervalos regulares, fortes, breves. Melodia, harmonia e ritmo compunham as peças musicais tocadas garbosamente pelo grupo de cantores. Lembrou-me algumas bandas de músicas na época de bailes frequentados na juventude. Repertório diversificado tocado por seis integrantes da terceira idade. Nenhum jovenzinho ou no início da adultice, naquele grupo. Saía dos poros de cada componente da banda, paixão pela arte de tocar e cantar, encantando plateia. Perceptível. É amor, esse sentimento que ultrapassa limites, move fundos, percorre mundos, para estar ali, naquele recinto de pequeno porte, tocando para centenas de pessoas. Senti-me sensibilizada profundamente, eu, ser estranho com antenas ligadas na potência máxima da bisbilhotice, percorri com olhos de águia, manifestações de emoções no olhar das pessoas, para colher poesia. Instante poético fulgurante, daqueles em que bichos e insetos se calam para ouvir, o canto mais belo e harmonioso do uirapuru. Plateia extasiada com a extensão do espetáculo; eu hipnotizada pelo toque do pandeiro, deixei olhos se perderem no brilho das rodelas de metal. Bati os pés, no ritmo das soalhas, até me deparar com um episódio que me alargou o sorriso. Cena típica, talvez nem notada pela plateia que se deixava embalar pelas vozes melodiosas dos cantores, e toque de seus instrumentos musicais. O pandeirista segurava o instrumento com a mão direita, enquanto a esquerda fazia a percussão, batendo com a palma, os pulsos e os dedos. Ás vezes, o som saía curto e seco; depois de mirar a figura que estava ao meu lado, meio floreado, com umas sacudidelas, que faziam soar apenas as soalhas. A inspiradora do toque floreado, conhecida minha, virava o rosto com um sorrisinho conspiratório, quando o pandeirista sorria docemente para ela. Pairava naquela mulher certa timidez, que impedia o pretendente se declarar ali mesmo, para todos ouvirem, que estava a fim de sua pessoa. Óbvio para mim, a troca de olhares. O sentar-se na primeira fila para ver seu suposto amado tocar, já dava sinais de a paixão ser correspondida. A cada finalização de música, ela aplaudia com tanto vigor, que as palmas eram as mais entusiastas da plateia. Poderia dar um empurrãozinho… Lembrei-me do encontro engendrado por amigas, que me aproximou do meu marido. Com desejo de cupido daquele casal, falei baixinho:

“Músicas lindas, né? Grupo bacana! O pandeirista não tira os olhos de você…”

Ela sorriu de canto a canto, respondendo.

“Sou tímida, sabe como é? Completei setenta, e a timidez ainda me trava. Não fica bem uma solteirona como eu, ser flagrada dando bola, descaradamente. É feio! Hoje vocês usam qual expressão?

“Flertar? Acho que é esta a palavra. Não sei direito, já passei dos quarenta. Estou meio desatualizada.”

“Mas você deve ter quase a metade da minha idade!”

“Talvez… Você conhece o pandeirista, né? Devem ser amigos…”

“Amigos? Não! Não o conheço pessoalmente!”

“Ah! Pensei que eram conhecidos!”

“Não! Acho que a maior parte de meus conhecidos casou, mudou ou morreu!”

“Mas, ele não tira os olhos de você! Não percebeu?”

“Claro que sim! Marcamos nosso primeiro encontro aqui, depois de alguns meses de bate-papo no face…”

Fiquei surpresa com a forma moderna deles se conhecerem.

“Você o conheceu na internet, então? Sério?”

“Tá achando que eu quero ficar pra trás? Sou velha, solteirona, mas acompanho os passos da modernidade! Vim aqui espiar pessoalmente, para ver se ele é tudo aquilo que está na internet, sabe?”

“E…”

“Tá meio caidinho, né? Falha no dente, meio barrigudinho… Acho que quero não. O bom da tecnologia é que você não precisa dar o fora na cara da pessoa. Antes de a banda terminar de tocar, vou dar o fora…”

“Mas… Por que não conversa com ele, primeiro?”

“Não serve! Não quero! Não é possível… Os amigos dele estão aqui…”

A mulher estava amedrontada.

“Se você quiser, posso tentar afastá-los. Ficarei por perto. Acho que vale a pena trocar umas palavrinhas…”

“Nem vem. Tô indo embora!”

O pandeirista perguntou-me onde a mulher tinha ido. Dei de ombros. Ele insistiu, voltando a me perguntar se ela tinha deixado algum recado. Abri a boca para dizer que o bate-papo não passaria da rede, até visualizar brilho intenso em seu olhar.

“Passe uma mensagem pra ela, marcando encontro num outro local, só vocês dois! No seu trabalho não rola! Ela é muito tímida!”

Ele aquiesceu, animado, despedindo-se da turma de músicos.

Retornei para casa, com o coração triste. O pandeirista foi embora na mesma hora, para trocar mensagens com a senhora. Levaria um fora? Provavelmente. Que estúpido cupido, fui eu? Aquele olhar esperançoso não saía da minha cabeça. Ela estava a fim dele também, percebi no sorriso, no olhar e nas palmas vigorosas. Frustrada com aquela história mal resolvida; mas vai passar, com o ritmo passante do tempo. Uma semana depois, ao entrar no restaurante, vi a senhora e o pandeirista sentados numa mesa no canto, conversando animadamente. Rolou! O encontro foi impulsionado pelo cupido aqui, que com ritmo acertado, juntou as soalhas daqueles dois. O amor é isto, sentimento que ultrapassa virtualidades para se presentificar em sons floreados, com intervalos ora regulares, ora fortes, ora breves, sob a batuta de um ansioso cupido.

 

Andreia Aparecida Silva Donadon Leal – Deia Leal é Mestre em Letras – Estudos Literários pela UFV. Presidente da ALACIB. Diretora de Projetos Culturais da Aldrava Letras e Artes.