A Crônica: Ser Triste — Andreia Donadon Leal

Crônica: Ser Triste de Andreia Donadon Leal

 

Ser Triste

Andreia Donadon Leal

 

MARIANA [ ABN NEWS ] — Nasci triste. Poderia afirmar apenas isso, sem ter que dar satisfações ou explicações mirabolantes, para uma, duas; mais pessoas ou ninguém, que algum dia for ler isso.

A tristeza, desde o nascimento, veio impregnada em meus ossos e corrente sanguínea. Infância e adolescência transitaram no limiar da tristeza e da euforia. Essa fase foi o início do dilema: ser triste ou não ser… Eu poderia dizer, falsamente, para alegrar os leitores que sou uma pessoa alegre. Isto é trivial; politicamente correto e aconselhável, ocupar linhas e laudas defendendo a felicidade. É bonito dizer: – eu sou feliz, porque a vida é bonita, e é bonita… Recairia nessa afirmativa o dever de ser feliz. Ser feliz não é dever, nem obrigação, é opção. Não confundam o MEU (com letras maiúsculas porque é pessoal) conceito de felicidade e de alegria. Alegria é estado efêmero, passageiro. Felicidade é termo subjetivo, abstrato, impalpável e inalcançável. É estágio permanente, mas também mórbido de contentamento, de plena satisfação por todas as coisas materiais e imateriais. Felicidade é estática, sem altos e baixos. É ser subserviente com a vida. Sorriso constante no rosto e bom humor exemplar. Algumas pessoas optam por serem felizes e defendem com unhas e dentes a felicidade. Para elas, é necessário ser feliz pelo fato e pela sorte de estarem vivas.

Seria correto dizer que a felicidade faz parte do 1° artigo da Constituição da Vida? Talvez sim. E melhor seria se esse texto viesse encharcado de louvores e saudações à felicidade. Ser feliz é um signo pesado e irreal, geralmente enxertado no final dos contos de fadas: “e viveram felizes para sempre”… Sem tristeza, sem sofrimento, sem discórdia, sem temores; em uma água morna e num mar calmo e tranquilo de felicidade.

Não sou contra os contos de fadas e reconheço suas habilidades e méritos incontestáveis em enriquecer o imaginário de crianças e até de adultos. Os contos de fadas têm valor intrínseco na história da Literatura. É fato. Porém há uma magia silenciosa na tristeza. Opto por ser triste e não depressivo, por ser triste e não desanimado, por ser triste e não derrotado, por ser triste sem entristecer o outro; por ser triste por opção e liberdade, ao invés de ser feliz por obrigação ou porque é politicamente recomendável pela vida.

Nasci triste. Sou triste e vou morrer triste, por opção e autenticidade.

 

Andreia Aparecida Silva Donadon Leal – Deia Leal é Mestre em Letras – Estudos Literários pela UFV. Presidente da ALACIB. Diretora de Projetos Culturais da Aldrava Letras e Artes.