Usando para não usar – Por Renato J. Costa Valladares

Renato J. Costa Valladares

 

 

 

 

 

 

 

 

Por Renato J. Costa Valladares

RIO [ ABN NEWS ] — Nos dias atuais, repletos de crises do governo, precisamos do raciocínio lógico para entender o que se fala. Nossa ideia não é apontar ‘erros ou acertos’. Longe de mim falar bem ou mal a respeito de procedimentos políticos.

Um bom ponto de partida é a Imprensa. Como o dever de ofício é a informação, o jornalista precisa de um rumo seguro para trabalhar. Quando olha o desacordo entre as muitas partes envolvidas, ele sente o peso de suas responsabilidades. O que tem uma ideologia sólida apega-se a ela e vai em frente.

Entretanto adotar uma ideologia sólida, não satisfaz a maioria das pessoas (eu entre elas). Não há nada errado nisto. Os líderes ideológicos são relativamente poucos quando se compara com a imensidão humana. Usando suas infinitas variações de pensamento, as pessoas não se integram a uma ou outra ideologia.

Em vez disso cada um adota o que acha melhor nas várias ideologias que conhece. Completa o que falta, usando seu próprio pensamento. Esta é a Humanidade e o jeito é se acostumar com ela. Sem medo de errar, podemos falar em um sincretismo ideológico quase individual, construído por cada um de nós.

Frente a uma crise política do tamanho da nossa, os desentendimentos se exacerbam e no meio deste movimento, o jornalista procura seus arrimos. Isto fica claro quando lemos as matérias que eles escrevem.

Contrariamente aos tempos mais tranquilos, o ‘tom’ do texto muda. As frases tornam-se mais objetivas e breves. Palavras fortes do tipo ‘lógica’ ‘certeza’ ‘radicalismo’ e outras, amparam o autor. Em certo sentido o texto lembra um professor de Matemática explicando um teorema a seus alunos. Para dar substância a estas ideias vamos citar duas notícias de jornal que li recentemente.

Em vez de usar a palavra ‘impeachment’ que representa um ataque formal, a presidente Dilma Rousseff trocou esta palavra por ‘golpe’. A intensão dela foi óbvia. Trocou uma palavra que tem conotação de legalidade por outra que denota ilegalidades. Ela usou o recurso clássico de desqualificar o acusador para defender o acusado.

Este é um procedimento que se encaixa naquilo que o autor deste artigo chama de ‘usando para não usar’.

A outra notícia informava que o então presidente Lula havia dito em tempos passados, que a poderosa ‘Standers & Poor’s’ (SP) havia anunciado ao mundo, que o Brasil estava em situação favorável sob o ponto de vista econômico financeiro.

Como era de esperar, o presidente comemorou devidamente este fato.

O tempo passou e, recentemente, a mesma ‘SP’, vendo as dificuldades do Brasil, rebaixou sua antiga posição a uma qualificação inferior. Ao tomar conhecimento deste fato, o ex-presidente desconsiderou a comemoração anterior e disse que a avaliação da ‘SP’ era irrelevante.

O ex-presidente também usou um recurso clássico. Ao dizer que a avaliação era irrelevante ele queria fazer crer que o Brasil estava tão bem que podia desconsiderar a avaliação da ‘SP’. Mais uma vez estamos frente ao ‘usando para não usar’, citado acima.

Como dissemos, os repórteres sentem necessidade de entender melhor as coisas para prestar um serviço de boa qualidade a seus leitores.

Deixando os jornalistas em paz e trazendo o final deste artigo a mim – o autor – informo que a expressão ‘usando para não usar’ é o título do capítulo 7 do meu livro “O Jeito Matemático de Pensar”. Trabalhei nos 5 anos que antecederam a publicação em 2003. A pesquisa que fiz, mostrou muitos aspectos que ocuparam onze páginas. O primeiro item recomenda que “Não estraguemos a piada”. Trata-se do trabalho dos humoristas que de erro em erro faz surgir o riso que tanto gostamos. Outro aspecto é a necessidade de “Coerência e Ética”.

Sempre há alguém perguntando sobre o ‘usando para não usar’. Vi e ouvi muita coisa, respondi o que podia. Entretanto nunca imaginei que dois presidentes da República usariam este recurso.

O leitor interessado pode entrar em contato com o autor no e-mail rjcvalladares@gmail.com ou acessar o seu perfil no Facebook